A sarcoidose pulmonar costuma ser descrita como uma doença predominantemente restritiva, mas sua expressão funcional é muito mais heterogênea. Obstrução ao fluxo aéreo, distúrbio ventilatório misto, redução isolada da capacidade de difusão e até função pulmonar normal podem ocorrer. Nesse cenário, a tomografia computadorizada (TC) pode oferecer uma classificação morfológica mais informativa do que o estadiamento radiográfico de Scadding, cuja correlação com a gravidade fisiológica é limitada.
Yadav e colaboradores avaliaram essa relação em um estudo retrospectivo multicêntrico publicado no CHEST (Julho/2026). A coorte reuniu 932 pacientes com sarcoidose provenientes do National Jewish Health, Cleveland Clinic e consórcio Genomic Research in Alpha-1 Antitrypsin Deficiency and Sarcoidosis (GRADS), atendidos entre 2008 e 2018. Todos tinham TC de alta resolução, espirometria e medida da capacidade de difusão do monóxido de carbono (DLCO) realizadas em intervalo máximo de 180 dias.
Nove radiologistas torácicos classificaram visualmente as tomografias, sem acesso às informações clínicas. A sarcoidose foi considerada fibrótica quando havia massa conglomerada, distorção arquitetural, bronquiectasias de tração ou faveolamento; alterações parenquimatosas sem esses achados definiram o subtipo não fibrótico. A função pulmonar foi categorizada como possível restrição, obstrução, distúrbio misto, redução isolada da transferência gasosa ou fisiologia normal, com limites inferiores de normalidade derivados das equações da Global Lung Function Initiative.
Dos 932 participantes, 353 (38%) apresentavam sarcoidose fibrótica, 380 (41%) tinham alterações não fibróticas e 199 (21%) não exibiam anormalidade parenquimatosa. O grupo fibrótico tinha maior tempo desde o diagnóstico e pior desempenho em todos os principais parâmetros funcionais. Fisiologia anormal estava presente em 65% dos pacientes com fibrose, contra 31% no subtipo não fibrótico e 25% entre aqueles sem alteração parenquimatosa.
A heterogeneidade funcional foi marcante na doença fibrótica: 23,2% apresentavam obstrução, 22,7% possível restrição e 13,9% distúrbio misto; apenas 31,7% mantinham fisiologia normal. Nos grupos não fibrótico e sem anormalidade parenquimatosa, a função era normal em 62,6% e 66,8%, respectivamente. Além disso, os pacientes com fibrose tinham menores valores de volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1), capacidade vital forçada (CVF) e DLCO.
A morfologia da fibrose também se associou a padrões fisiológicos específicos. Entre os 353 pacientes com doença fibrótica, 81,6% tinham anormalidades lineares ou reticulares, 71,4% bronquiectasias de tração, 54,7% massas conglomeradas ou fibrose confluente e 9,3% faveolamento. A presença de massa conglomerada aumentou em mais de dez vezes a chance de distúrbio misto em comparação com fisiologia normal (OR 10,73; IC99% 2,99–38,49; p<0,001) e triplicou a chance de obstrução (OR 3,25; IC99% 1,34–7,91; p<0,001).
Curiosamente, o predomínio de alterações nos campos médios ou superiores associou-se a menor chance de possível restrição (OR 0,32; IC99% 0,11–0,92; p=0,006), distúrbio misto (OR 0,15; IC99% 0,04–0,56; p<0,001) e redução isolada da transferência gasosa (OR 0,16; IC99% 0,03–0,83; p=0,004). Esse resultado não significa que a doença de predomínio superior seja benigna; sugere que a localização e a arquitetura das lesões influenciam de modos diferentes a mecânica pulmonar e as trocas gasosas.
Outro achado potencialmente relevante foi o maior diâmetro da artéria pulmonar no grupo fibrótico: 29,6 mm, comparado a 26,8 mm tanto no grupo não fibrótico quanto naquele sem alteração parenquimatosa. Embora a medida possa sinalizar maior carga vascular ou hemodinâmica, o estudo não avaliou hipertensão pulmonar de forma direta; portanto, esse dado deve ser interpretado como associação tomográfica, e não como diagnóstico.
O estudo tem limitações importantes. O desenho retrospectivo e transversal impede estabelecer causalidade ou prognóstico, e não houve análise de mortalidade, progressão ou resposta terapêutica. A população era predominantemente branca e apresentava comprometimento fisiológico relativamente leve. A ausência de volumes pulmonares por pletismografia tornou a classificação de restrição apenas provável, o intervalo de até seis meses entre TC e função pulmonar pode ter introduzido desalinhamento temporal, e a concordância entre radiologistas variou conforme o achado.
Na prática, a mensagem central é que “sarcoidose fibrótica” não constitui um fenótipo fisiológico único. A TC ajuda a reconhecer pacientes com maior probabilidade de comprometimento funcional e, dentro da fibrose, massas conglomeradas identificam um grupo particularmente associado à combinação de obstrução e restrição. Esses achados apoiam uma leitura integrada da morfologia tomográfica, espirometria e DLCO, mas ainda precisam de validação prospectiva antes de orientar prognóstico ou decisões terapêuticas específicas.
Link de Referência: https://doi.org/10.1016/j.chest.2026.02.006