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FPI: avaliação multidimensional de progressão supera o GAP score na predição de mortalidade.

Doenca pulmonar intersticial Por Fernando Studart 55 Visualizações 02/08/2026 11:18 Artigo de 2026

A fibrose pulmonar idiopática (FPI) permanece uma doença limitante da vida, com sobrevida mediana de 2,5 a 3,5 anos após o diagnóstico. As terapias antifibróticas — pirfenidona e nintedanibe — reduzem o declínio anual da CVF e o risco de exacerbações agudas, mas a progressão da doença frequentemente persiste apesar do tratamento. Estudos de mundo real continuam a reportar sobrevida em 3 anos entre 59% e 73%, e sobrevida em 5 anos abaixo de 60%. Nesse cenário, permanece a necessidade de ferramentas que capturem o comportamento dinâmico da doença durante o tratamento, além dos índices prognósticos basais como o GAP (Gender, Age, Physiology).

Em 2022, a ATS/ERS/JRS/ALAT publicou diretrizes definindo fibrose pulmonar progressiva (FPP) para doenças pulmonares intersticiais fibróticas diferentes da FPI. Os critérios exigem pelo menos dois de três domínios em 12 meses: piora de sintomas respiratórios, declínio fisiológico (≥5% de queda relativa da CVF ou ≥10% de queda relativa da DLCO) e progressão radiológica na TCAR. Embora o construto tenha sido desenvolvido para DPI não-FPI, seus domínios — sintomático, fisiológico e radiológico — refletem manifestações fundamentais da atividade fibrótica em curso e são biologicamente relevantes também para a FPI.

Wu e colaboradores testaram essa hipótese em uma coorte prospectiva do registro REGILD, conduzido em um centro terciário de referência em Taiwan. O estudo, publicado no periódico BMC Pulmonary Medicine (Julho/2026), incluiu 90 pacientes com FPI confirmada por discussão multidisciplinar, todos em uso de antifibrótico (nintedanibe ou pirfenidona) reembolsado pelo sistema de saúde taiwanês. A mediana de idade foi de 71,9 anos (IIQ 62,8–79,4), 77,8% eram homens, e o seguimento mediano foi de 3,6 anos. Nenhum paciente foi submetido a biópsia pulmonar cirúrgica; os diagnósticos basearam-se em avaliação clínico-radiológica multidisciplinar.

Após um ano de tratamento, 50 pacientes (55,6%) preencheram os critérios de FPP. O grupo progressivo apresentava IMC basal significativamente menor (22,0 vs. 24,8 kg/m², p = 0,034), maior frequência de crepitações basais (90,0% vs. 70,0%, p = 0,016) e padrão de pneumonia intersticial usual (PIU) definitivo na TCAR (58,0% vs. 32,5%, p = 0,016). Nos três domínios da FPP, as diferenças foram marcantes: progressão de sintomas ocorreu em 58,0% vs. 7,5% (p < 0,001), progressão fisiológica em 90,0% vs. 20,0% (p < 0,001), e progressão radiológica em 86,7% vs. 29,4% (p < 0,001). A queda mediana da CVF foi de −7,0% no grupo progressivo contra um ganho de +6,0% no grupo estável (p < 0,001); para a DLCO, a queda foi de −7,0% vs. +3,0% (p = 0,004).

O desfecho primário foi mortalidade por todas as causas em 3 anos. Ao todo, 28 pacientes (31,1%) morreram durante o seguimento. A mortalidade em 3 anos foi significativamente maior no grupo com progressão definida por FPP: 46,0% (23/50) contra 12,5% (5/40) no grupo estável (p = 0,001). A curva de Kaplan–Meier mostrou separação precoce e sustentada entre os grupos. Na análise univariada, IMC mais baixo (HR 0,82, IC 95% 0,74–0,91, p < 0,001), escore GAP mais elevado (HR 1,57, IC 95% 1,27–1,95, p < 0,001) e progressão definida por FPP (HR 4,60, IC 95% 1,75–12,10, p = 0,002) associaram-se a maior risco de morte.

Na análise multivariada — restrita a poucas covariáveis devido ao número limitado de eventos (28 óbitos em 90 pacientes) — IMC mais baixo (HR 0,87, IC 95% 0,78–0,96, p = 0,006) e progressão definida por FPP (HR 3,39, IC 95% 1,23–9,34, p = 0,018) permaneceram independentemente associados à mortalidade. O escore GAP não foi incluído no modelo principal com FPP por preocupação com colinearidade, já que o GAP incorpora idade, sexo, CVF e DLCO — variáveis que se sobrepõem conceitualmente ao domínio fisiológico da FPP.

Em análise complementar, os autores testaram o valor prognóstico adicional da FPP além do escore GAP. Em um modelo combinado, tanto o GAP (HR 1,42, IC 95% 1,14–1,77, p = 0,002) quanto a progressão definida por FPP (HR 3,18, IC 95% 1,16–8,73, p = 0,025) permaneceram independentemente associados à mortalidade. A adição de FPP ao modelo com GAP melhorou significativamente o ajuste (Δχ² = 5,610, p = 0,018), indicando que a avaliação longitudinal da trajetória da doença captura informação prognóstica complementar à estratificação de risco basal.

O estudo tem limitações importantes. É uma coorte unicêntrica com apenas 90 pacientes, o que restringe o poder estatístico e a generalização dos achados. Os critérios de FPP foram originalmente desenvolvidos para DPI não-FPI; sua aplicação à FPI é exploratória e geradora de hipóteses. A progressão de sintomas foi avaliada por mudanças nos escores CAT e mMRC — instrumentos originalmente desenvolvidos para DPOC, com limiares de resposta não totalmente estabelecidos na FPI. O IMC foi obtido apenas no momento basal, sem dados longitudinais de peso, impedindo distinguir entre estado nutricional prévio, perda ponderal relacionada à doença e efeitos adversos do tratamento. Por fim, a menor frequência de PIU definitivo no grupo sem progressão levanta a possibilidade de que apresentações radiológicas menos típicas da FPI estejam associadas a um curso mais indolente.

Na prática clínica, estes achados sugerem que os critérios de FPP podem oferecer uma estrutura multidimensional útil para monitorar o comportamento da doença após o início da terapia antifibrótica. Pacientes que preenchem os critérios de FPP no primeiro ano — mais da metade nesta coorte — apresentam risco de morte em 3 anos quase quatro vezes maior e podem se beneficiar de seguimento mais próximo, avaliação mais precoce para transplante pulmonar, inclusão em ensaios clínicos ou intensificação do cuidado de suporte. Ao mesmo tempo, a associação independente do IMC baixo com mortalidade reforça a importância da avaliação nutricional sistemática no manejo da FPI. A combinação de escores basais como o GAP com a avaliação longitudinal da progressão representa uma estratégia promissora para refinar a estratificação de risco, mas requer validação externa em coortes multicêntricas maiores antes da incorporação rotineira.

Link de Referência: https://doi.org/10.1186/s12890-026-04501-x