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Scleroderma Lung Study III (SLS III) - Micofenolato de mofetila + pirfenidona vs. micofenolato isolado na doença pulmonar intersticial associada à esclerose sistêmica

Doenca pulmonar interticial Por Fernando Studart 4 Visualizações 17/01/2026 09:47

O estudo Scleroderma Lung Study III (SLS-III)(Novembro/2025) investigou se a adição da pirfenidona ao micofenolato de mofetila traria benefícios superiores em comparação à monoterapia com micofenolato no tratamento da doença pulmonar intersticial associada à esclerose sistêmica. Este ensaio clínico de fase 2, multicêntrico e randomizado, acompanhou pacientes por 18 meses, utilizando uma dose de 1500 mg de micofenolato duas vezes ao dia combinada a 801 mg de pirfenidona ou placebo três vezes ao dia. O desfecho primário foi a mudança na porcentagem prevista da capacidade vital forçada, a FVC%. Um fator determinante para a interpretação dos resultados é que o estudo apresentou baixo poder estatístico, pois apenas 51 dos 150 pacientes previstos foram randomizados. Essa dificuldade de recrutamento foi atribuída a barreiras como a pandemia de COVID 19, o uso crescente do micofenolato como padrão de cuidado na comunidade e a aprovação do nintedanibe para a mesma indicação durante o período do estudo.

Em relação aos resultados de função pulmonar, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos no desfecho primário. A FVC% melhorou 2,24 ± 1,35 (erro padrão da média) no grupo micofenolato com placebo e 2,09 ± 1,28 no grupo de combinação com pirfenidona, resultando em uma diferença de apenas -0,14 com p=0,93. Embora a análise de subgrupos tenha sugerido que o tempo mediano para atingir uma melhora de 3% na FVC% foi numericamente menor no grupo da pirfenidona, sendo 12,3 meses contra 17,8 meses no controle, tal achado não alcançou significância estatística. Por outro lado, um dado relevante surgiu nos desfechos secundários, onde o escore de função física do sistema PROMIS 29 (Patient-Reported Outcomes Measurement Information System – 20) mostrou uma melhora significativa favorável à terapia combinada (p=0,04). Além disso, as medidas de tomografia computadorizada de alta resolução para fibrose pulmonar quantitativa apresentaram tendências numéricas de melhora no grupo da pirfenidona, embora sem atingir o limiar de significância.

Em termos de segurança e tolerabilidade, esse estudo mostrou que a combinação foi mais difícil de manejar na prática clínica. O grupo que recebeu pirfenidona apresentou uma frequência consideravelmente maior de eventos adversos de interesse especial, totalizando 74,1% dos pacientes contra 29,2% no grupo placebo. Esses eventos foram predominantemente distúrbios gastrointestinais e reações de fotossensibilidade, o que resultou em uma taxa de descontinuação prematura da medicação muito mais elevada no braço da pirfenidona em relação ao grupo placebo (8 vs. 2). Consequentemente, embora existam sinais sugestivos de que a pirfenidona possa acelerar a resposta funcional e melhorar a percepção de qualidade de vida física do paciente, a falta de poder estatístico impede conclusões definitivas sobre sua eficácia superior.

A avaliação crítica da literatura indica que o SLS III reforça o micofenolato como uma terapia de base sólida, uma vez que o grupo controle demonstrou estabilização funcional consistente com os achados do estudo anterior SLS II. A ausência de superioridade clara da combinação pode ser atribuída à falta de poder estatístico da amostra ou a um possível efeito teto na melhora da FVC. O estudo sugere que a CVF isolada pode não ser o biomarcador mais sensível para captar benefícios clínicos sutis e que futuros ensaios clínicos em ES-DPI devem focar em desfechos compostos que integrem a percepção funcional do paciente e análises radiológicas quantitativas para melhor avaliar a eficácia terapêutica.

Link de Referência: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12648624/