O ensaio clínico de fase 3 HYPERION (Outubro/2025) investigou o uso do sotatercepte, um inibidor da sinalização da activina que atua no reequilíbrio das vias proliferativas e antiproliferativas da vasculatura pulmonar, em pacientes adultos com hipertensão arterial pulmonar (HAP) diagnosticada há menos de um ano.
O estudo incluiu 320 pacientes com classe funcional II ou III da Organização Mundial da Saúde (OMS), que apresentavam risco intermediário ou alto de morte e já recebiam terapia dupla ou tripla estável. A randomização foi realizada em uma proporção de 1:1, estratificada conforme a classe funcional basal e o tipo de terapia em uso (dupla ou tripla). O grupo de intervenção recebeu sotatercepte subcutâneo a cada 21 dias, com dose inicial de 0,3 mg por quilograma de peso corporal, escalonada para uma dose alvo de 0,7 mg por quilograma, enquanto o grupo controle recebeu placebo. Salienta-se que durante a condução do ensaio clínico, as medicações de base para HAP foram mantidas sem alterações programadas, uma vez que o sotatercepte foi avaliado como uma terapia adjuvante (add-on).
O desfecho primário foi o tempo até a primeira ocorrência de piora clínica, um desfecho composto por morte, hospitalização não planejada por HAP, septostomia atrial, transplante de pulmão ou deterioração no desempenho de testes de esforço.
Em uma análise crítica, os resultados demonstraram um benefício robusto e precoce na intervenção. Pelo menos um evento do desfecho primário ocorreu em 10,6% dos pacientes no grupo sotatercepte e em 36,9% no grupo placebo, resultando em um hazard ratio de 0,24 (IC 95% 0,14 a 0,41; P < 0,001). Essa redução de 76% no risco de piora clínica foi impulsionada principalmente pela prevenção da deterioração no desempenho de testes de esforço, que ocorreu em 5,0% versus 28,8%, e por menos hospitalizações não planejadas por agravamento da HAP, observadas em 1,9% versus 8,8%. Em termos de relevância clínica, aos 12 meses de acompanhamento, a redução absoluta do risco foi de 22 pontos percentuais, com um número necessário para tratar (NNT) de apenas 5, indicando que o sotatercepte preveniu um evento de piora para cada cinco pacientes tratados. É fundamental ressaltar que o estudo foi interrompido precocemente devido à perda de equilíbrio clínico após a divulgação de resultados positivos de outros ensaios como o STELLAR e o ZENITH, o que, embora reflita a eficácia inequívoca da droga, pode limitar a análise de desfechos de segurança a longo prazo e o impacto na mortalidade total, que foi de 4,4% no grupo sotatercepte e 3,8% no placebo.
Quanto ao perfil de segurança, os eventos adversos mais frequentes associados ao uso do sotatercepte foram epistaxe (31,9%) e telangiectasia (26,2%). Episódios de sangramentos ocorreram em 41,2% no grupo de intervenção contra 16,2% no controle, sendo a maioria dos episódios de natureza não grave, como sangramento gengival e epistaxe, embora sangramentos graves tenham ocorrido em 3,8% contra 1,9%. Observou-se também um aumento médio nos níveis de hemoglobina de 1,2 g/dl no grupo sotatercepte. Embora a população do HYPERION fosse mais velha e apresentasse mais comorbidades em comparação a estudos anteriores, os benefícios foram consistentes em todos os subgrupos analisados, reforçando a aplicabilidade do fármaco mesmo em pacientes com esquemas terapêuticos complexos que podem incluir o manejo com corticosteroides em contextos de exacerbação ou doenças sistêmicas associadas. O sotatercepte consolida-se, assim, como uma terapia modificadora da doença capaz de desacelerar significativamente a progressão da HAP já no primeiro ano de tratamento.
Referências Adicionais
Waxman AB, et al. Sotatercept for Pulmonary Arterial Hypertension within the First Year after Diagnosis. N Engl J Med 2025;393:1599-611.
Humbert M, et al. Sotatercept in patients with pulmonary arterial hypertension at high risk for death. N Engl J Med 2025;392:1987-2000.
Hoeper MM, et al. Phase 3 trial of sotatercept for treatment of pulmonary arterial hypertension. N Engl J Med 2023;388:1478-90.
Você gostaria que eu comparasse esses achados do HYPERION com os resultados do estudo STELLAR para o seu blog, focando nas diferenças de perfil dos pacientes entre o diagnóstico precoce e a doença de longa data?
Link de Referência: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2508170