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CLEAR trial - Salina hipertônica ou carbocisteína em bronquiectasias não-fibrocísticas

Bronquiectasias não fibrocísticas Por Fernando Studart 44 Visualizações 18/04/2026 17:09 Artigo de 2025

O estudo CLEAR, publicado no New England Journal of Medicine (Outubro/2025), avaliou a eficácia de dois agentes mucoativos amplamente utilizados no tratamento da bronquiectasia não relacionada à fibrose cística: a salina hipertônica a 6% e a carbocisteína. Este ensaio clínico randomizado, aberto e fatorial dois por dois foi conduzido em 20 centros no Reino Unido, recrutando adultos com diagnóstico confirmado por tomografia computadorizada, produção diária de escarro e histórico de pelo menos uma exacerbação pulmonar no último ano. Os participantes foram divididos em quatro braços: uso isolado de salina hipertônica 6% (nebulizada via sistema eFlow rapid), uso isolado de carbocisteína (750 mg três vezes ao dia por 8 semanas, seguido de 750 mg duas vezes ao dia), a combinação de ambos os fármacos ou apenas o tratamento padrão, que incluía técnicas de higiene brônquica conforme as diretrizes da British Thoracic Society.

Em relação à caracterização dos 288 pacientes randomizados, os grupos mostraram-se equilibrados. A idade média foi de aproximadamente 65 a 66 anos, com predominância do sexo feminino (variando de 53% a 66% entre os subgrupos). A gravidade da doença, mensurada pelo Bronchiectasis Severity Index (BSI), apresentou médias entre 7,0 e 7,8, indicando uma população com doença de gravidade moderada. O uso de técnicas de limpeza de vias aéreas já era rotina para cerca de 74% a 78% dos pacientes no início do estudo, e a prevalência de colonização por Pseudomonas aeruginosa variou entre 11% e 14%. Não houve evidência de interação estatística entre a salina hipertônica e a carbocisteína (P = 0,60), permitindo a análise independente de cada intervenção.

O desfecho primário foi o número de exacerbações pulmonares ao longo de 52 semanas. Os resultados demonstraram que nenhuma das intervenções reduziu significativamente a incidência de exacerbações. A média ajustada de exacerbações foi de 0,76 (IC 95%, 0,58 a 0,95) no grupo da salina hipertônica versus 0,98 (IC 95%, 0,78 a 1,19) no grupo sem salina (p = 0,12). Para a carbocisteína, a média foi de 0,86 (IC 95%, 0,66 a 1,06) contra 0,90 (IC 95%, 0,70 a 1,09) no grupo sem a droga (p = 0,81). Desfechos secundários, como qualidade de vida (medida pelos questionários QoL-B e SGRQ), tempo para a próxima exacerbação e função pulmonar (VEF1), também não apresentaram diferenças clínicas ou estatísticas relevantes.

Quanto à segurança, a incidência de eventos adversos graves foi similar entre os grupos. No entanto, observou-se uma maior frequência de distúrbios gastrointestinais no grupo que utilizou carbocisteína (16% versus 3% no grupo sem carbocisteína). No grupo da salina hipertônica, houve um relato superior de sintomas respiratórios e torácicos relacionados ao tratamento (18% versus 1% no grupo controle).

Em conclusão, o estudo sugere que a adição rotineira desses agentes mucoativos ao tratamento padrão não oferece benefício clínico adicional na redução de exacerbações para pacientes com o perfil estudado, devendo-se considerar o custo e o ônus do tratamento na prática clínica.

 

Link de Referência: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2510095