O estudo conduzido pela Taiwan Bronchiectasis Research Collaboration (TBARC), publicado no periódico Lung (Abril/2026), avaliou o papel prognóstico dos níveis séricos de imunoglobulina E (IgE) em pacientes com bronquiectasia, especificamente naqueles sem eosinofilia periférica. Embora a bronquiectasia seja tradicionalmente vista como uma doença de predominância neutrofílica, este estudo prospectivo multicêntrico identificou que a ativação da via inflamatória tipo 2 é um fenótipo clinicamente relevante e frequentemente subestimado.
A pesquisa acompanhou 579 pacientes por um ano, estratificados pela contagem de eosinófilos no sangue (ponto de corte de 300/µl) e níveis de IgE. Os resultados revelaram que 85,1% da coorte apresentava bronquiectasia não eosinofílica. Dentro deste grupo, pacientes com IgE superior a 500 IU/ml apresentaram um risco significativamente maior de hospitalização por exacerbação grave em comparação com aqueles com níveis baixos ou intermediários de IgE (9,8% vs. 2,3% e 0,9%; p = 0,009). Na análise multivariada, o nível de IgE acima de 500 IU/ml emergiu como o preditor independente mais forte para hospitalizações, com uma razão de chances ajustada de 7,38 (p < 0,001).
É importante notar que a associação entre IgE elevada e exacerbações graves foi consistente mesmo após o ajuste para variáveis como idade, sexo e comorbidades, sendo particularmente pronunciada em mulheres e em pacientes com asma coexistente. Em relação aos desfechos secundários, não houve diferença estatística na mortalidade por todas as causas entre os diferentes estratos de IgE. Quanto ao perfil microbiológico, as bactérias mais isoladas no escarro foram micobactérias não tuberculosas (10,7%) e Pseudomonas aeruginosa (9,0%). O estudo não observou correlação significativa entre os níveis de IgE e os parâmetros de função pulmonar ou gravidade radiológica pelo escore de Reiff.
Em conclusão, a elevação acentuada da IgE sérica identifica um subgrupo de alto risco para exacerbações graves em pacientes com bronquiectasia não eosinofílica. Estes achados sugerem que a dosagem de IgE deve ser considerada na avaliação de rotina para permitir uma fenotipagem mais precisa desses pacientes. Na mesma linha, o reconhecimento das heterogeneidades inflamatórias na doença bronquiectásica poderá facilitar o desenvolvimento de estratégias de tratamento individualizadas, adaptadas a endótipos específicos, com pbenefícios potenciais na otimização do tratamento das bronquiectasias.
Link de Referência: https://link.springer.com/article/10.1007/s00408-026-00874-2